Na parede do salão havia duas fotos, uma do Corinthians de Presidente Prudente e do Clube
Atlético Ourinhense (CAO). Os dois times nem mais disputam o futebol
profissional. Quem passava pela avenida Altino Arantes no cruzamento da
Monsenhor Cordova, em Ourinhos, nem desconfiava que o barbeiro João
Alberto de Carvalho foi boleiro dos bons. É conhecido por
Robertinho, inclusive o salão levou o mesmo nome, batizado nas quatro
linhas. O estabelecimento não existe mais e foi fechado.
A carreira
futebolística de Robertinho começou em Avaré no antigo São Paulo, depois passou
pela Ipauçuense, Cambaraense, Clube Atlético Ourinhense,
Corinthians de Presidente Prudente, entre outros clubes interioranos.
No Paraná foi campeão
do centenário pela Cambaraense, no São Paulo de Avaré ergueu a
taça do quadrangular oeste da série B (divisão de acesso) e o
título, de 1959, que garantiu a primeira divisão ao antigo
Corinthians de Prudente e direito a enfrentar os times grandes da
capital.
A memória de
Ricardinho já não é tão boa. Ele tem dificuldades de lembrar de
suas participações no Ourinhense, o vermelhinho que, inclusive,
tinha o estádio da baixada. O clube na atualidade enfrenta grave
crise financeira e está ameaçado de perder a sede social devido a
dívidas previdenciárias e trabalhistas.
O Corinthians de
Presidente Prudente nem existe mais. Robertinho lembra de Décio
Mendonça, outro grande jogador da Esportiva Santacruzense, que
brilhou na Prudentina, rival do alvinegro mosqueteiro. “Na verdade
quem ia para a Prudentina no lugar do Décio era eu, mas a
contratação não deu certo”, lembra Robertinho. Sobre Décio
Mendonça, o ex-boleiro diz que era “um jogador completo, forte,
inteligente e bom armador”.
Robertinho veio de
Avaré para Ourinhos, a convite do irmão Oscar, que jogava no
Operário. Naquela época, a paixão futebolística dividia a cidade
em dois times: para baixo da estação o alvinegro Operário e, para
cima, o Ourinhense, conhecido por “vermelhinho” por causa do
uniforme.
Os dois clubes se
degladiaram na fase amadora e tiveram curta temporada no futebol
profissional.
O Clube Atlético
Ourinhense disputou seis temporadas pela antiga 3ª divisão, entre
1961 a 1966, além de participação na segunda divisão em 1952. O
maior rival da cidade, o Operário, disputou em 1954 e 1958 a
terceira divisão profissional. O vermelhinho foi fundado em 5 de
junho de 1919. Em 1967 se inscreveu para disputar a 3ª divisão, mas
desistiu. Na época o CAO era rival à altura da Santacruzense e do
Piraju, ambos campeões da terceira divisão.
Robertinho não se
esquece que o Corinthians enfrentou o time de Pelé. “O rei jogava
muita bola. Ela fazia uma jogada de efeito, chutando no pé do
adversário e completando a jogada. Fez isso no zagueiro Cotia”,
lembra o ex-atacante do vermelhinho.
O pai de Pelé,
Dondinho, também foi um jogador até bom para os padrões da época.
Ricardinho não esquece que chegou a jogar contra Dondinho.
Na carteira amarelada,
escrita a bico de pena do Sindicato dos Atletas de Futebol
Profissional, consta os contratos de Robertinho por vários clubes do
interior paulista.
A fase áurea foi no
Corinthians, time que goleou o Bragantinho por 4 a 1 e ganhou o
acesso à divisão especial em 8 de março de 1960. O título valia
pelo ano de 1959 e garantiu acesso à divisão especial.
Durou um ano de
temporada entre os grandes, o alvinegro não fez uma grande campanha,
terminando em 17º colocado e voltando depois à segunda divisão. O
alvinegro mosqueteiro disputou a divisão de acesso desde 1948. Parou
em 1975 e deu lugar ao Presidente Prudente, ainda voltou em 1976 até
parar as atividades. Atualmente, em Presidente Prudente, o time que disputa a Série B (quarta divisão) leva nome da cidade.
Pelo acervo de fotos,
Robertinho era ídolo em Presidente Prudente. A sua passagem pelo
Ourinhense é pouco documentada em fotos. “Naquela época não
tinha tanta facilidade para tirar fotografia”, justifica.
A profissão de
barbeiro foi uma atividade que Robertinho acumulou junto com o mundo
do futebol. “Essa cadeira e esses móveis eu ganhei com o pagamento
de luvas do tempo do Ourinhense”.
Após a aposentadoria,
Ricardo confessa que não gosta mais de assistir jogos de futebol.
Prefere viver só da recordação. A sua trajetória está guardada
num acervo de fotos preto em branco, embrulhada com jornal e anexada
com recortes da antiga Gazeta Esportiva, Diário da Noite e jornais
de Presidente Prudente e Ourinhos.
Ricardinho teve salão de barbeiro em Ourinhos. (Foto: Jornal Debate)

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